segunda-feira, 26 de maio de 2008

Pela primeira vez no mundo, uma transexual dará à luz uma criança

O caso de uma norte-americana, convertida legalmente para o gênero masculino, que está no sétimo mês de gravidez, ganhou destaque e levantou uma série de questionamentos pelo mundo. É possível um homem grávido? Ele é mãe e pai ao mesmo tempo? A gravidez é segura, não havendo riscos nem para o gestante, nem para a criança? "Sem dúvida, as questões morais e sociais são as que mais pesam. Não para os diretamente envolvidos, que podem tratar isso de maneira tranqüila, já que a sexualidade não deve ser um tabu nessa casa", destaca o psiquiatra Alexandre Saadeh, do Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo.

Thomas Beatie, 34 anos, contou sua história no talk-show de Oprah Winfrey, no canal ABC. O futuro papai de uma menina fez cirurgia estética para retirada das mamas há dez anos, se submeteu a um tratamento hormonal com efeito androgênico para induzir a virilização (aparência masculina) e mudou de sexo por vias legais. Mas, do ponto de vista biológico, é uma mulher com plena capacidade de engravidar.A transexual casou-se há cinco anos com uma outra mulher, Nancy, mãe de duas filhas. Como a esposa sofrera anteriormente uma histerectomia (retirada do útero), quando o casal decidiu ter um filho, ele se propôs a engravidar. "Foi um ato de amor da transexual para a companheira. Na realidade, essa grávida vai ser pai e a mãe vai ser sua esposa. No momento mais apropriado, o filho vai saber que foi fruto de uma situação especial", diz Saadeh.

Recorreram, então, a inseminação artificial. Nove médicos foram envolvidos no processo, até que tiveram acesso a um banco de esperma e encontraram a obstetra Kimberly James, que acompanha o caso. A inseminação foi feita em casa, por Nancy, com esperma de um doador anônimo. Beatie engravidou pela primeira vez em 2007, mas o embrião se fixou fora da cavidade uterina, o que levou a um aborto natural. Em relação a atual gestação, a obstetra que acompanha o caso afirmou, no programa de Oprah, que o feto é perfeitamente saudável e que não corre perigo pelo fato de o pai ter tomado testosterona durante anos. Quando decidiu engravidar, ele cortou suas doses regulares de hormônio masculino e voltou a ovular naturalmente, não utilizando nenhuma droga para aumentar a fertilidade. "Agora suas taxas de hormônio são normais", disse Kimberly.

De acordo com o ginecologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), José Soares, o nível de testosterona é, justamente, o que poderia representar risco ao bebê. "Somente se ele estiver muito elevado e se a transexual ingerir durante a gestação, principalmente, entre a oitava e a décima semana, um feto do sexo feminino pode adquirir aparência do masculino, modificando a genitália. Caso o contrário, é uma gravidez como a de qualquer outra mulher", diz. O médico também destaca que todo paciente "independente das suas crenças ou aparência" merece consideração e atenção do profissional de saúde.

O advogado e professor de Direitos Humanos, Enézio de Deus, diz que no Brasil são realizadas as chamadas cirurgias de transgenitalização. "Uma vez comprovado o caso de transexualidade e já tendo sido realizada a operação, um(a) transexual tem o direito de mudar o nome em todos os documentos". O também autor do livro A possibilidade jurídica de adoção por casais homossexuais afirma que "a orientação sexual e a transgeneridade não qualificam ou desqualificam uma pessoa para o exercício da maternidade/paternidade responsáveis. O fato de uma pessoa ser transexual não a inabilita à educação de uma prole, seja biológica ou adotiva."

Fonte: http://delas.ig.com.br/mae/noticias/2008/05/11/papai_gravido_1306460.html

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