quinta-feira, 29 de maio de 2008

Diferentes fatores explicam a inibição do desejo sexual

Há pessoas que não gostam ou ficam sem fazer sexo por bastante tempo numa boa. Vários motivos levam a essa escolha, já que é natural e orgânico gostar de transar. De acordo com a psicóloga e terapeuta sexual Claudia Longhi Ercolin, a inibição do desejo sexual pode ser causada por diversas razões, como ressentimentos de relações passadas, nunca ter tido orgasmo (muitas mulheres dizem que não gostam de sexo porque na realidade nunca tiveram orgasmo), dedicação extrema à religião, ao trabalho ou atividades físicas, menopausa e repressão sexual, entre outras. Segundo a psicóloga Maria Jaqueline Coelho Pinto, professora doutora e coordenadora do curso de pós-graduação em Sexualidade da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), quando não há vontade de fazer sexo o que ocorre é falta de libido ou desejo, que é a energia que impulsiona à busca do prazer. Ela afirma que essa energia nasce com as pessoas e as acompanha até o último momento de vida, de modo que em algumas fases, como na adolescência, ela aumenta e em outras, como na infância e/ou velhice, reduz.

“Essa energia nunca é totalmente abolida. Ela é moldada pelas experiências pessoais e influenciada pela educação. Se positivas aumentam, se negativas diminuem.” Para Jaqueline quem fica sem sexo numa boa com certeza canaliza a energia para outra fonte de prazer. “Não ter vontade de fazer sexo, às vezes, é semelhante a não ter vontade de ir à praia. Por mais que goste muito e tenha o hábito de fazê-lo há dias em que não se está a fim.” Cláudia afirma que desejo e sexo deveriam ser algo natural do ser humano, mas há questões culturais e sociais que causam muita repressão sexual e influenciam na sexualidade de homens e mulheres. “A verdade é que só não gosta de sexo quem não consegue viver livremente e de forma prazerosa a própria sexualidade.” A terapeuta sexual explica que ao passar por uma fase difícil é “normal” não sentir vontade de transar. Situações como a do luto, do fim de relacionamentos, de desemprego, gravidez e após o nascimento do bebê, entre outras, afastam as pessoas temporariamente do sexo.

De acordo com a professora doutora, acredita-se que haja uma dificuldade de percepção de desejo sexual não conhecida ou involuntária. Ela diz que, segundo estudos, em muitos casos as sensações corporais e atividades sexuais vêm acompanhadas de imagens e pensamentos negativos, que acarretam na supressão de sensações sexuais prazerosas, transformadas em agente estressor e codificadas como algo ruim ou pouco prazeroso. “Portanto, esse corpo vai responder de acordo com a coerência interna de cada pessoa. As causas para não gostar de sexo ou ficar sem ele são extremamente individuais e a história de vida modela o comportamento sexual.” Jaqueline esclarece que, além dos já citados, outros fatores podem impedir o indivíduo de viver sua sexualidade de forma plena e prazerosa, entre eles doenças orgânicas como câncer, entre outras, e a utilização de certos medicamentos ou drogas.

Além disso, muita gente ‘mente’ quanto à freqüência sexual na maioria das pesquisas realizadas sobre esse assunto. Jaqueline diz que isso ocorre porque as pessoas associam a freqüência sexual ao desempenho e dão importância maior à quantidade e não à qualidade da relação. “Na verdade, não há uma freqüência ideal. Depende de cada pessoa, de cada casal. O importante é a freqüência ser satisfatória para ambos.” Cláudia diz que casais em relação estável realmente têm transado menos do que falam, conforme pesquisa apresentada pela revista “Veja”, do dia 19 de março. “Muitos fatores influenciam isso: a qualidade da transa é muito melhor que a quantidade, a rotina, problemas diários, como contas, filhos e trabalho, entre outros. Por mais que pareça termos mais liberdade, a sensação é de que falar de sexo, do que gosta, ainda é errado.” A terapeuta sexual orienta as pessoas a não se cobrarem tanto com pesquisas ou dados de amigos e conhecidos sobre a quantidade de vezes que praticam sexo, pois a freqüência sexual depende de como o casal está em determinado período.

Ambos têm necessidades parecidas.
Muitos dizem que as mulheres conseguem ficar mais tempo sem transar do que os homens, mas isso é mais um dos mitos impostos pela sociedade. De acordo com a psicóloga e coordenadora do curso de pós-graduação de Sexualidade da Famerp Maria Jaqueline Coelho Pinto, essa questão diz respeito à repressão sexual diferenciada pelo gênero, o que ocasionaria a crença de que a mulher teria menos interesse e necessidade sexual que o homem. No entanto, ela lembra que muita coisa tem se modificado e as novas exigências no comportamento feminino têm se tornado cada vez mais próximas do padrão masculino. “Exige-se hoje uma mulher sexuada, que tenha e expresse seus desejos sexuais, seduza e encante seus parceiros.” Segundo pesquisas da Sociedade Brasileira de Estudos da Sexualidade Humana (Sbrash), cerca de 20% a 30%das mulheres sofrem inibição do desejo.

Jaqueline explica que na fisiologia da resposta sexual humana o desejo é o primeiro passo para que todo ato sexual aconteça de forma satisfatória. Sem ele a mulher não se sente disponível para o sexo e isso, na maioria das vezes, reduz a freqüência com que faz sexo. “Às vezes, o desejo sexual surge no decorrer das carícias iniciadas pelo parceiro, de forma que a mulher consegue excitar-se. Há outras ocasiões em que a mulher sente essa procura como uma invasão, da qual tenta esquivar-se, o que pode levar o casal a sérios problemas de relacionamento.” Para a psicóloga e terapeuta sexual Cláudia Longhi Ercolin, atualmente, as mulheres já assumem que gostam de transar, mas ainda sofrem com o preconceito de serem vistas como ‘fáceis’. “Os homens que fazem isso são vistos como ‘garanhões’. Penso que a necessidade de ambos são parecidas, mas a divulgação do fato é diferente, a mulher ainda se preserva mais.”

Além disso, ela lembra que os homens são estimulados pela pornografia, pela nudez feminina, pela variedade sexual, pelas roupas íntimas e pela disponibilidade da mulher. Enquanto as mulheres têm o apetite sexual acionado pelo amor romântico, pelo compromisso, pela comunicação, pela intimidade e pelas carícias. O modo como homens e mulheres lidam com a sexualidade no cotidiano depende de uma série de fatores já mencionados aqui. A falta de sintonia sexual entre o casal é outro inibidor de desejo. “Quando o par não tem sintonia o sexo vai perdendo a qualidade e desestimula os parceiros para as próximas relações.”

Auto-estima
Em geral, as pessoas que se queixam de inibição do desejo sexual apresentam baixa auto-estima, segundo a professora da Famerp. Ela diz que envolve não só o descontentamento com alguma parte do corpo ou imagem, mas outros fatores como insegurança emocional, carências afetivas e autocrítica severa, entre outras questões. “Isso não se resolve somente com plásticas e recursos estéticos. É preciso fazer um trabalho de autoconhecimento para isso tudo vir à tona e a pessoa ir em busca de seu caminho. Logicamente, tudo isso se reflete no sexo. Se conhecer e estar à vontade com o próprio corpo se torna fundamental para exercer plenamente e com liberdade a sexualidade.” Cláudia ressalta que quanto melhor for a auto-estima mais confiante será a pessoa e assim poderá construir a própria sexualidade de maneira satisfatória, buscando o prazer sem culpas.

Expectativa por intimidade
Com a modernidade, fazer sexo sem compromisso se tornou ‘comum’. Para a coordenadora do curso de Sexualidade da Famerp Maria Jaqueline Coelho Pinto isso é reflexo de uma sociedade pós-moderna que lança as pessoas a um processo de mudança altamente veloz, fragmentado e descontínuo, em que os relacionamentos não demandam continuidade e sim o descompromisso, a impessoalidade. “O ‘rolo’ e o ‘ficar’ são características dessa vivência, de experimentar se é bom ou não estar junto. Mas, ainda acredito que as pessoas em sua natureza mais subjetiva clamam por intimidade, reciprocidade e por um verdadeiro encontro.”

A terapeuta sexual Cláudia Longhi Ercolin não é contra o sexo sem compromisso, mas alerta que somente quem tem maturidade emocional consegue mantê-lo. “Quando o sexo é bom, gostoso e nenhum dos praticantes cria expectativas de uma futura relação, não há problemas. Porém, só conseguem isso pessoas maduras.” Ela diz que muitos dizem transar sem compromisso, mas na verdade esperam por uma relação estável dessas transas ocasionais. É nessas circunstâncias que surge o problema, segundo a especialista, porque provavelmente a pessoa está tentando se enganar. “Quando isso ocorre o indivíduo deve se questionar: ‘por que digo que é sem compromisso quando na verdade o desejo? Que jogo é esse? O desejo de fazer sexo e a intensidade desse desejo dependem de quê? Pensem nisso.”

DICAS:
:: Mudanças de hábitos podem ajudar a vida sexual, como fazer exercícios físicos, já que favorecem a liberação no organismo de substâncias químicas cerebrais que aumentam a sensação de bem-estar, como a serotonina

:: Cuidar da vida sexual é tão importante quanto cuidar e investir em tantas outras áreas

:: Pode parecer estranho, mas sentir desejo tem a ver com o fato de se preparar para o sexo e não deixá-lo como última opção

:: Exercer a sexualidade é tão natural como tantas outras ocasiões do cotidiano

:: Caso não sinta vontade de sexo se questione o porquê disso: é uma escolha ou passou por algum trauma?

Fonte - Claudia Longhi Ercolin e Maria Jaqueline Coelho Pinto, psicólogas

Matéria Publicada no Diário da Região, 29 de maio de 2008

Nenhum comentário: